A colaboração da Polícia Federal com um filme sobre a Operação Lava Jato provocou a insatisfação de membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e, sobretudo, de Luiz Inácio Lula da Silva.

O ator Ary Fontoura, de 83 anos, encarna o ex-presidente Lula no filme Polícia Federal – A Lei É para Todos. Fontoura, em 2016, teceu críticas públicas ao PT e a Dilma Rousseff, além ter militado pelo impeachment da então presidente – assim como Marcelo Serrado, que fará o papel do juiz Sérgio Moro. O ator participou de manifestações contra o governo Dilma e, em uma das ocasiões, saiu às ruas vestindo uma camisa estampada com a foto do personagem que irá incorporar no cinema.

O filme, que compreende desde a primeira fase da operação “Lava Jato” até a 24ª, uma produção de cerca de US$ 4.9 milhões, fruto da parceria entre a produtora New Group e a Recanto Produções, é apartidária, nas palavras do produtor. Segundo as informações preliminares o filme tem previsão de lançamento para maio de 2017.

A direção é de Marcelo Antunez e o elenco traz nomes como Marcelo Serrado, no papel do juiz Sérgio Moro; Leonardo Medeiros, no papel de Marcelo Odebrecht; Roney Fachini, como o ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa; Roberto Birindelli, como o doleiro Alberto Youssef, além de Marcelo Serrado, Flávia Alessandra, Bruce Gomlevsky, Rainer Cadete, entre outros.

"O filme não tem viés político nenhum, é um filme investigativo que está trazendo as situações que aconteceram, mas não estamos fazendo apologia ou coisa qualquer nesse sentido com relação a fulano ou sicrano, até porque o filme fala que são vários partidos que estão envolvidos, não é só o PT. Fica sempre uma sensação que alguma coisa é contra o ex-presidente Lula. Não. É um filme de entretenimento, um thriller policial para o grande público. É como você estivesse vendo um filme do FBI", diz o produtor.

Na última quinta-feira, a defesa do ex-presidente enviou uma petição ao juiz Sérgio Moro em que reivindica o sigilo de imagens que teriam sido repassadas por autoridades aos produtores do longa “Polícia Federal: a lei é para todos”. De acordo com o advogado Cristiano Zanin, a produção obteve acesso ilegal a filmagens captadas por um agente da Polícia Federal durante a condução coercitiva de Lula com o intuito de reconstituir a cena, que deve compor o desfecho da obra.

“Os vídeos, que teriam sido entregues a terceiros, mostram a residência, a intimidade e a coleta de depoimento do ex-presidente Lula”, disse Zanin em um seminário sobre a Lava Jato promovido pelo PT nesta sexta-feira, em São Paulo, onde atribuiu o vazamento à PF.

“É uma situação muito grave. Em vez de zelar pelo material confidencial, aparentemente as autoridades o entregaram à produtora do filme, que é alinhado às ideias dos acusadores do ex-presidente e detém um material que a Constituição Federal considera privado.” Na petição, os advogados de Lula citam trechos de entrevistas em que os produtores do filme revelam ter tido acesso a vídeos para auxiliar na reconstituição de passagens da Operação Lava Jato.

Além do sigilo, eles solicitam à produtora New Group Cine & TV LTDA, responsável pelo projeto cinematográfico, que não utilize as imagens da condução coercitiva.

Ainda no evento do Partido dos Trabalhadores, Zanin afirmou que a suposta divulgação pela Polícia Federal é “mais uma prova de que os processos da Lava Jato não observam garantias legais”.

Integrantes do PT se manifestaram sobre o filme no seminário do partido, alegando que o vazamento das imagens faria parte de uma nova investida do juiz Sérgio Moro para espetacularizar as acusações contra Lula. O ex-presidente, que discursou no fim do evento, também demonstrou irritação ao comentar sobre o repasse das gravações.

“Entraram em minha casa com uma câmera de filmar no peito e já entregaram as imagens para um filme. Não podemos aceitar esse tipo de abuso de autoridade.” Lula ainda aproveitou para convocar os parlamentares petistas para uma ofensiva contra o que chamou de “excessos” da Justiça, pressionando pela aprovação do projeto de lei criticado por juízes e procuradores em tramitação no Senado.

É importante mostrar o outro lado da Lava Jato.

“O PT tem obrigação de brigar um pouco mais por essa causa no Congresso Nacional. A gente não pode deixar de aprovar a lei de abuso de autoridade, porque ninguém está acima das instituições. Vou nessa briga até o fim.”, tinha dito o ex-presidente Lula da Silva.

O cientista político Emir Sader, coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da UERJ, analisa a questão surgida com a utilização de imagens supostamente feitas pela Polícia Federal e mostrando a condução coercitiva de Lula para depor na Operação Lava Jato.

A 24.ª Fase da Operação Lava Jato, realizada em 4 de março de 2016, teve como grande destaque, na mídia nacional e internacional, a condução coercitiva do ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva para depor na Polícia Federal de São Paulo, em cumprimento a mandado expedido pelo Juiz Federal Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato.

Além de toda a celeuma que a condução coercitiva causou – Lula foi acordado pela Polícia Federal em seu apartamento em São Bernardo do Campo e levado para depor numa dependência da instituição do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo –, ela ainda ensejou uma nova polêmica, a denúncia de que cenas daquela ação foram entregues à produtora New Group & Raconto, que está fazendo o filme "Polícia Federal – A Lei É para Todos", em que o personagem Lula é interpretado pelo ator Ary Fontoura, e o Juiz Sérgio Moro, por Marcelo Serrado.

Assunto espinhoso

Tanto o diretor quanto o produtor Tomislav Blazic afirmam que a intenção é fazer um filme de entretenimento e passar ao largo de qualquer vinculação partidária. Mas todos sabem que se trata de um assunto espinho...

Para o cientista político Emir Sader, a repercussão em torno do filme e da alegada inclusão das cenas da condução coercitiva de Lula pela Polícia Federal reflete o caráter arbitrário de toda a situação.

Sader declara: "Um filme que pretende se chamar 'Polícia Federal – A Lei É para Todos' é um conjunto de arbitrariedades. Primeiro porque a invasão da casa de Lula foi absolutamente ilegal; em segundo lugar, a tentativa de levá-lo para depor, coercitivamente, em condições a que ele nunca tinha sido convocado, resultou numa condenação pelo Supremo Tribunal Federal que desqualificou essa operação, mas que agora, para espanto de todos, ficamos sabendo que suas filmagens foram entregues para efeitos midiáticos e para produção de um filme que tende a explorar o 'herói' Moro e o 'bandido' Lula. Os advogados do Lula já entraram com uma ação contra a realização desse filme, impugnando inclusive sua exibição se ele incluir essas imagens.”.

Sobre a possibilidade de o filme influenciar no ânimo dos eleitores diante de uma possível candidatura de Lula à eleição presidencial de 2018, Emir Sader acentua: "O filme tem uma intenção muito óbvia. O próprio título contém essa mensagem muito clara ao proclamar que ‘a lei é para todos’ é do [Juiz Sérgio] Moro, querendo dizer que ninguém está acima da lei, salvo ele, que se refere ao Lula como 'nine' ('nove', em inglês), pelo fato do Lula ter perdido um dedo, como trabalhador, ao operar uma máquina. A inclusão dessas imagens tem a clara intenção de elevar a rejeição contra Lula, abalando suas pretensões presidenciais para 2018." Emir Sader também comentou os rumores de que a produção de "Polícia Federal – A Lei É para Todos" teve amplo acesso às imagens da operação conduzida pelos agentes federais: “As noticias iniciais eram exatamente essas”.

E tudo dava a entender que a cessão dessas imagens foi propositalmente feita a interesses privados para a realização do filme, em que pese o Moro ter pedido esclarecimentos à Polícia Federal sobre tais rumores. “Vamos ver que resultados essas circunstâncias terão, porque elas causaram constrangimento até mesmo para o Juiz Sérgio Moro.”

Em relação a tais denúncias, Sérgio Moro determinou à Polícia Federal que apresentasse explicações para os fatos. Por meio de ofício, o Delegado Igor Romário de Paula negou que a Polícia Federal tenha cedido quaisquer imagens da operação e ressalvou que todos os procedimentos foram feitos com total discrição, sem uso de uniformes e viaturas ostensivos, "sem que tenha sido divulgada qualquer imagem que atente contra a imagem do investigado".

 

 

 

Mar 30, 2017 07:29 UTC
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